Professor diz que veneno tem potencial para combater células cancerígenas. Estudos apontaram resultados favoráveis para cura de outras doenças.

Uma pesquisa desenvolvida por um professor do Departamento de Química da Universidade Federal do Piauí (UFPI) é mais uma esperança na busca pelo tratamento e a cura de alguns tipos de câncer. Os estudos são desenvolvidos com o veneno dos sapos e, segundo os pesquisadores, já foi possível encontrar grande potencial na substância produzida pelos anfíbios.

A pesquisa é encabeçada pelo professor doutor Gerardo Magela e foi iniciada há cerca de quatro anos, quando o piauiense ainda lecionava na Universidade Federal de Mato Grosso. Lá, as pesquisas foram realizadas com sapos das espécies Rhinella marina e Rhaebo guttatus, encontrados no bioma amazônico. Há cinco meses na UFPI, ele resolveu incluir nos estudos o sapo Rhinella jimi, conhecido como cururu, encontrado na caatinga.

Magela explica como o veneno age e fala dos resultados

De acordo com Magela, desde o primeiro ano as pesquisas com as espécies da região amazônica já começaram a dar bons resultados. Ele afirma que já foram testadas diversas atividades com o veneno dos sapos e sustenta que as substâncias biológicas encontradas no veneno dos anfíbios possuem grande potencial para combater células cancerígenas.

“Nós já testamos muitas atividades e dentre elas a mais promissora é a atividade citotóxica, que foi testada frente à linhagem de células de câncer. Obtivemos bons resultados em um tipo de câncer chamado de glioblastoma, que ataca o sistema nervoso central, no câncer do colo do útero, de ovário e leucemia”, explicou o professor.

Além da constatação do poder das substâncias contra as células de câncer, testes realizados em camundongos revelaram também que o material extraído do veneno dos sapos possui potencial medicamentoso frente à insuficiência cardíaca, malária e até a alguns tipos de fungos encontrados em espécies agrícolas como soja, feijão, milho e algodão.

Apesar de liderar as pesquisas, Magela destaca que uma equipe multidisciplinar é envolvida no trabalho. Dois alunos de graduação em química da UFPI também participam. Os sapos são capturados e têm o veneno coletado por biólogos autorizados pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Após a coleta, o material é repassado ao professor, que estuda a constituição química, separa as substâncias dos venenos e as leva para grupos de pesquisa da área de farmacologia.

Gerardo Magela começou a pesquisar os sapos há quatro anos

“Nos testes observou-se um ataque às células cancerígenas. Os camundongos estavam com tumor e observamos uma regressão. Só que detectamos ataque das substâncias às células normais, indicando que não é seletivo como a maioria dos quimioterápicos. Esse ataque ainda é um desafio a ser superado. Temos que encontrar uma substância que mate as células de câncer e seja menos agressiva às normais. É possível que se faça modificações na estrutura dessas substâncias tentando minimizar esses efeitos colaterais”, falou.

O professor explica que o veneno é retirado de uma glândula chamada de paratóide, localizada atrás dos olhos dos sapos. “Nessa glândula é onde está o acúmulo do veneno produzido pelos sapos. Tem outras espécies que possuem micro-glândulas que são distribuídas por toda a pele, que também podem estar sendo extraídas”, disse.
Após a coleta do veneno, os sapos são devolvidos à natureza.

Veneno é retirado de uma glândula
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Foto: Gustavo Almeida/G1

Gerardo enfatiza que o Brasil possui uma biodiversidade de anfíbios muito rica e destaca que sua pesquisa serve até mesmo para alertar sobre a preservação desses animais.

“Serve de alerta porque as pessoas geralmente jogam sal quando veem um sapo e isso vai entupir as glândulas, atrapalhar a respiração e o sapo vai acabar morrendo. É algo que não deve ser feito porque o sapo, além de servir para o controle biológico de pragas, poderá trazer grandes benefícios futuramente para o homem”, alertou.

Apesar dos resultados promissores obtidos pela pesquisa, o professor ressalta que ainda vai levar algum tempo para que suas conclusões possam levar à produção de medicamentos contra o câncer ou outras doenças. Segundo ele, uma pesquisa para se desenvolver medicamento leva atualmente um tempo médio de 15 anos de duração.

“Nós ainda estamos no início, fazendo atividades in vitro e atividades em camundongos. Até chegar nas fases de análises clínicas, para que possam ser desenvolvidos os medicamentos, ainda vai demorar. É um estudo que demanda um tempo grande”, afirmou.

Sapo do Piauí
Por enquanto, os resultados que apontam para efeitos promissores se referem às pesquisas com os sapos do bioma amazônico, iniciadas ainda no Mato Grosso e cujo prosseguimento está sendo dado no Piauí. Os estudos com o sapo cururu encontrado na caatinga já estão sendo colocados no cronograma da pesquisa, mas ainda serão iniciados.

Rhinella jimi (sapo cururu) encontrado no Piauí também será pesquisado

Mesmo assim, o professor destaca que alguns estudos na literatura mostram que o sapo encontrado no Piauí apresenta atividade citotóxica e contra os parasitas vetores da leishmaniose e da doença de chagas. Devido a isso, ele resolveu incluir a espécie da caatinga nas pesquisas e espera obter resultados ainda mais positivos com ela.

“Cada espécie tem uma constituição química diferente. Ela pode ter substâncias diferentes ou substâncias iguais, mas em quantidades diferentes. Por isso é muito interessante a gente estudar o sapo daqui, porque a constituição química dele vai ser totalmente diferente e, quem sabe, seja melhor que a do sapo do Mato Grosso”, concluiu.

Números da doença
Segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA), mais de 12 milhões de pessoas no mundo são diagnosticadas todo ano com câncer e cerca de 8 milhões morrem em decorrência da doença. No Brasil, a estimativa era de 580 mil casos novos da doença para 2015.

No Piauí, a estimativa era de 5.560 novos casos em 2014 para cada grupo de 100 mil habitantes.

Globo

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