Renovar para manter a liderança

Texto: MARIA MARTA AVANCINI
Fotos: FELIPE CHRIST

Os jovens de hoje têm uma relação com a informação e com o conhecimento muito diferente daquela vivenciada pelas antigas gerações. É essa visão de mundo, afirma o reitor da Unicamp, professor José Tadeu Jorge, que deverá dar o rumo das novas formas de ensinar e aprender.

Para o reitor, a reflexão sobre a renovação dos métodos de ensino deve ser uma preocupação central da Universidade, no âmbito do cinquentenário da Unicamp, a ser celebrado no ano que vem.

Tadeu afirma que a Unicamp é o resultado de um modelo visionário e de sucesso, baseado numa profunda integração entre ensino, pesquisa e extensão. É esse modelo que mantém a instituição como a melhor do Brasil, segundo vários indicadores, enfatiza o reitor.

Ao mesmo tempo, a instituição e outras universidades do país veem-se diante do desafio de renovar o ensino, o que envolve necessariamente a incorporação mais intensa da tecnologia, inclusive da educação a distância.

Leia, a seguir, a íntegra da entrevista que o reitor José Tadeu Jorge concedeu à Revista da UPA.

Revista da UPA – Por que um jovem deve estudar na Unicamp?

Tadeu – A indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão é a base de tudo o que é feito na Unicamp: formação de pessoas, disseminação do conhecimento e contribuições para a melhoria e o desenvolvimento da sociedade.

Este é o diferencial da Unicamp, é o modelo que a sustenta desde a sua fundação.  A Unicamp soube fazer isso como ninguém. Nós nascemos assim, e a Universidade cuidou de manter esse projeto ao longo de sua história.

Uma coisa que só se encontra na Unicamp, por exemplo, é a relação de equivalência entre o número de alunos de graduação e de pós-graduação.

Isto é muito importante porque coloca, lado a lado, alguém que está trabalhando na produção de conhecimento novo e alguém que está aprendendo a ser um profissional. Traz motivação e um efeito catalisador positivo na vida da Universidade e dos estudantes.

Por causa disso, a Unicamp é pioneira em muitos aspectos: licenciamento de patentes, empreendedorismo a partir de iniciativas de alunos e, também, de professores e funcionários, entre outros aspectos.

Quando me perguntam “por que devo estudar na Unicamp?”, eu argumento que, em nenhuma outra universidade brasileira, o estudante encontra uma relação tão harmônica entre ensino, pesquisa e extensão.

Revista da UPA – Em 2106, a Unicamp completará 50 anos. Qual é a universidade que os ingressantes selecionados no próximo vestibular vão encontrar?

Tadeu – O principal objetivo da Unicamp é a formação de recursos humanos qualificados e preparados para o exercício profissional. Eu sempre faço questão de enfocar essa duas dimensões, porque nem sempre elas caminham juntas. Uma instituição pode formar profissionais qualificados, porém não preparados para o exercício profissional. Por isso, eu sempre menciono esses dois aspectos. É a soma deles que transforma a Unicamp na universidade que conhecemos.

Qual o significado disso? Significa que o principal motivo de existir da Unicamp é formar pessoas em nível de graduação e de pós-graduação. Mas, para cumprir satisfatoriamente esta missão, é importante fazer bem e intensamente duas outras coisas que precisam necessariamente existir: a pesquisa e as relações com a sociedade, ou seja, a extensão.

Por que precisamos fazer bem e intensamente pesquisa? Porque significa trabalhar na ponta do conhecimento, produzir conhecimento novo. Ao fazer isso, criamos um ambiente de inovação. É isso que transmitimos aos nossos estudantes: o conhecimento mais atualizado que existe, porque os docentes trabalham lá na ponta.

Esse ambiente mergulha os estudantes num contexto em que eles vão ser sempre motivados a buscar o conhecimento novo, tornando a formação mais qualificada.

O relacionamento intenso e profundo com a sociedade é outra dimensão importante para formar melhor nossos estudantes. Na graduação, eles já passam a conhecer as demandas da sociedade em todas as áreas e veem como aquilo que aprendem pode ser utilizado, do ponto de vista profissional, para resolver problemas e melhorar a vida das pessoas. Isso que faz com que eles estejam preparados para o exercício profissional.

E o importante é que essas coisas atuem em conjunto, traduzindo o conceito da indissociabilidade de pesquisa, ensino e extensão. Esse é o modelo da Unicamp. Nem todas as universidades fazem assim.

Revista da UPA – O senhor acredita que o modelo de universidade que sustentou a Unicamp nos seus primeiros 50 anos de existência continuará a ter o mesmo vigor no futuro?

Tadeu – O aniversário de 50 anos nos leva ao reconhecimento de que o modelo da Unicamp deu certo, mas também traz uma reflexão sobre o que vamos fazer para que ele continue dando certo nos próximos 50.

O ensino, por exemplo, mudou muito desde que a Unicamp foi fundada. Em 1971, quando ingressei como aluno da graduação, a Unicamp tinha 5 anos. Desde então, a tecnologia evoluiu muito e o ensino está correndo atrás da tecnologia – não só na Unicamp, mas em todas as instituições de ensino. As universidades em geral estão tentando encontrar novas maneiras de ensinar.

Na década de 1970, a Unicamp desenvolveu uma das pesquisas mais importantes de sua história: o desenvolvimento das fibras ópticas no Instituto de Física. Elas possibilitavam a transmissão de dados de telefonia numa fibra fina como um fio de cabelo.

Isso era produção de conhecimento novo, e a Unicamp deu uma contribuição enorme para o desenvolvimento das fibras ópticas com tecnologia brasileira. Mas isso já passou, hoje existe wi-fi. E a Universidade acompanhou tudo isso.

A transformação da tecnologia é rápida e é bem possível que continue mudando cada vez mais rapidamente. Isso faz com que a Universidade tenha que tomar como uma prioridade bastante significativa repensar o ensino.

Revista da UPA – Ou seja, renovar o ensino é um desafio que se coloca para a Unicamp hoje?

Tadeu – Sem dúvida nenhuma. Tradicionalmente, um professor dá aula escrevendo ou projetando slides. Qual é o estímulo para o aluno? O estímulo é fazer com que o aluno anote, registre e comece a pensar sobre o conteúdo transmitido.

Hoje é diferente. O aluno fica olhando o professor dar aula e, quando a lousa está totalmente preenchida, pede licença e a fotografa com o celular.  É muito mais fácil para ele. A maneira como cada pessoa aprende é muito particular. Tem gente que memoriza mais anotando e tem gente que memoriza mais prestando atenção no que está ouvindo.

O modelo de universidade da Unicamp acompanhou a evolução da tecnologia e da comunicação e manteve-se atualizado na produção de conhecimento, na pesquisa. Os criadores da Unicamp as visualizaram um modelo à frente do momento em que viviam. Mas o ensino precisa ser repensado em razão das demandas das novas gerações.

Revista da UPA – O senhor vê a educação a distância como caminho nesse cenário?

Tadeu – Sim, vejo. A educação a distância só não deslanchou porque o ambiente universitário é muito contraditório, paradoxal. Ao mesmo tempo em que quer a inovação, em que trabalha para isso, é conservador.

É muito natural, no ambiente universitário, que as pessoas vejam a maneira tradicional de ensinar como a mais apropriada e tenham resistência em mudar, em reconhecer que pode ser diferente.

No momento em que houver uma libertação dessas visões mais conservadoras, principalmente por causa das novas gerações, isso vai deslanchar. Vai caminhar, acredito, para um sistema em que seja possível apurar o conhecimento que a pessoa adquiriu de forma segura. Esse é o grande receio da educação a distância – a segurança da avaliação.

Revista da UPA – Como o senhor vê o processo de inclusão de alunos da rede pública na Unicamp?

Tadeu – O PAAIS [Programa de Ação Afirmativa e Inclusão Social] foi instituído em 2004, já tem 11 anos, e demonstrou de forma inequívoca que não há nenhuma perda de qualidade por parte da Universidade ao fazer essa inclusão. Em alguns casos, é até o contrário, se ganha em qualidade.

Hoje isso é óbvio, os estudos mostram que os alunos de graduação oriundos da rede pública têm um desempenho equivalente ao de seus colegas que vieram da rede privada. Mas, em 2004, isso era uma premissa. Não tínhamos essa certeza.

Acontece assim porque as pessoas não são diferentes umas das outras. Elas vivem em contextos diferenciados e são, em boa parte, fruto desse contexto. Então, um estudante que faz escola pública, não é, de forma alguma, inferior àquele estudante que estuda numa escola privada. Ele só teve menos oportunidades de acesso a uma transmissão de conhecimento adequada.

E é enorme a capacidade de se resgatar do ser humano. A partir do momento em que esse estudante ingressa numa universidade, ele tem uma motivação para aprender. Ele agarra esta oportunidade e dá o melhor de si. É apenas uma questão de oportunidade.

Se houver uma melhoria também da educação básica no Brasil, sem dúvida que é possível fazer a inclusão com base num programa como o PAAIS, sem a necessidade de cotas. Acredito que vamos atingir a meta de 50% dos alunos oriundos da rede pública em 2017, estipulada pelo governo estadual com o PAAIS.

A lei também prevê que 35% dos matriculados sejam pretos, pardos ou indígenas, mas só conseguiremos atingir essa meta com o PAAIS, se houver uma melhoria da educação básica.

Revista da UPA – Qual mensagem que o senhor gostaria de transmitir aos estudantes que vão visitar a Unicamp durante a UPA?

Tadeu – Na recepção dos calouros de 2007, durante minha primeira gestão como reitor (2005-2009), eu os cumprimentei por terem ingressado na melhor universidade do país.

Na época, a declaração gerou polêmica, mas eu justifiquei por quê. Em produção do conhecimento, quando se usa o indicador de publicações em revistas indexadas e se divide pelo número de professores e pesquisadores, a Unicamp é a primeira colocada. Não o é em número absoluto, mas em números relativos, somos os primeiros.

Na média da avaliação da pós-graduação da Capes [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior], a Unicamp fica em primeiro lugar. Se analisarmos os números da Inova a Agência de Inovação da Unicamp relacionados à inovação aplicada, eles estão muito à frente de qualquer universidade brasileira.

No ensino de graduação, o “Guia do Estudante”, um indicador não oficial, mas reconhecido pela sociedade, coloca a Unicamp entre as melhores.

Se a Unicamp é ponta em tudo isso, então é a melhor do Brasil. Esta é a mensagem que eu gostaria de transmitir aos estudantes que vão visitar a UPA.

Ao mesmo tempo, é muito importante que eles acreditem que podem estar aqui e os resultados do PAAIS mostram que é perfeitamente factível.

É importante que eles venham à Unicamp e percebam que ela não é uma universidade inatingível, um lugar onde só há gênios – o que não é verdade. É importante quebrar essa percepção porque ela é falsa e gera um sentimento indevido de autoexclusão. Muitos acham que não adianta tentar. Mas vale sim e, quem tentar, tem boas chances de se surpreender positivamente.

UPA Unicamp

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